Ciprofloxacino deve ser utilizado na erisipela não-complicada?

Erisipela é uma infecção bacteriana cutânea, que envolve os vasos linfáticos superficiais, caracterizada pelo surgimento rápido de dor, edema, calor e rubor, geralmente acometendo regiões cutâneas de membros inferiores (embora possa ocorrer em qualquer local, como membros superiores, face, etc.).

Neste tópico, consideraremos erisipela não-complicada como aquela que, devido a sua extensão e apresentação clínica, teria condições de ser tratada ambulatorialmente.

Esta infecção tem como etiologia principal os estreptococos beta-hemolíticos, especialmente do grupo A.

OBS – Aqui é importante um adendo: as erisipelas não-complicadas em diabéticos  sem vasculopatia ou neuropatia, são causadas em sua maioria por estreptococos; já as infecções de partes moles nos pacientes com “pé diabético”, podem frequentemente ser causadas também por estafilococos, gram-negativos e ocasionalmente anaeróbios.

No último guideline da Infectious Disease Society of America (IDSA), recomenda-se que o tratamento da erisipela, quando em regime ambulatorial, seja feito com penicilina ou cefalosporina de primeira geração (Penicilina V oral 500mg 6/6h ou Cefalexina 500mg 6/6h). Acreditamos também que Clindamicina 300mg a cada 6 ou 8h pode ser considerada uma boa opção terapêutica. Macrolídeos são opção em alérgicos aos beta-lactâmicos. A duração do tratamento varia de 5-10 dias.

Na prática clínica, porém, frequentemente vemos pacientes portadores de erisipela não-complicada serem tratados com ciprofloxacino em monoterapia. Abaixo, algumas razões para não seguir esta conduta:

  • ciprofloxacino possui um bom espectro de ação contra cocos e bacilos gram-negativos, incluindo Pseudomonas aeruginosa. Possui também ação contra Staphylococcus aureus sensíveis à meticilina;
  • com relação aos estreptococos (agentes etiológicos mais frequentes de Erisipela), porém, a sensibilidade ao ciprofloxacino é reduzida e variável. Neste ponto, as quinolonas respiratórias (levofloxacino, moxifloxacino, gemfloxacino) se diferenciam do ciprofloxacino, demonstrando grande atividade contra os estreptococos, especialmente o S. pneumoniae;
  • a maioria dos guidelines internacionais não referenda o uso de ciprofloxacino como monoterapia de primeira linha na erisipela tratada ambulatorialmente;
  • penicilinas, cefalosporinas de primeira geração e clindamicina apresentam altas taxas de sucesso no tratamento da erisipela não-complicada.

Portanto, acreditamos que a prescrição rotineira de ciprofloxacino como monoterapia no tratamento da erisipela não-complicada não se justifica. Esta medicação, portanto, deve ser utilizada apenas em situações específicas, quando se considerar necessária associação de cobertura para bactérias Gram-negativas, como, por exemplo, na erisipela associada a úlceras cutâneas por vasculopatia/neuropatia diabética, infecções em imunossuprimidos, etc.

 

Referências:

1.       Gilbert DN et al. Guia Sanford: Guia de Terapêutica Antimicrobiana 2011.

2.       Mandell, Douglas and Bennett’s Principles and Practice of Infectious Diseases, 7th Edition.

3.       Steven DL ET al. Practice Guidelines for the Diagnosis and Management of Skin and Soft-Tissue Infections. Clinical Infectious Diseases 2005; 41:1373–406.

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